Obra

Domingo, Outubro 30, 2005


SONHO NÃO SE DÁ

Sentada no banquinho da praça, abriu o envelope.
Lá estava o nome dele, escrito com uma letra bonita, prateada...
E ao lado, um nome qualquer que não era o seu.
Leu o resto, a data, o local da cerimônia e da festa.
"Março... Que flores será que vão usar?".
Sentiu um nó se formar na garganta.
Pôs a culpa vã de lado e, sem se julgar, deixou a tímida lágrima que se formara no canto do olho abrir caminho para as outras, que pouco a pouco vieram.
Levantou os olhos do rebuscado convite por um instante, pra respirar um pouco, e viu um casal de velhinhos passeando mais a frente.
O coração se apertou. Já estava com 23 anos. Quantos ainda faltavam pra ela acertar?
Abaixando a cabeça, cobriu o rosto com a mão e chorou mais um pouco


ADRIENNE

"Eu queria ser que nem você, às vezes. Saber lidar assim, tão bem com a situação.. Mas não consigo. Ontem mesmo liguei pra minha ex e falei um monte de merda..."

Ficou orgulhoso de ouvir isso. Sentiu que realmente estava sendo maduro. Até superior, pra falar a verdade. Era bonito perdoar, sorrir, não sentir raiva.

Enquanto ouvia o brother filosofar acerca das suas dificuldades, encontrou uma foto dela perdida na carteira. Se desligando um pouco do blablablá do outro, olhou bem nos olhos da menina.

Lembrou do primeiro beijo deles, da primeira briga, da primeira TPM com ele, da primeira vez.

De repente, com uma caneta, começou a riscar o rosto da menina com força e não conseguiu parar até o papel furar. "Sua vadia". Meio estupefato de se ver xingando e furando o retrato assim, sentiu um alívio inesperado.

"Quê?", perguntou confuso o amigo do outro lado da linha. "Escuta, te ligo depois, velho".

Sem pensar muito, pegou a caixa que ficava embaixo da cama, virou no chão e começou: picotou foto por foto, rasgou as cartas, destruiu o ursinho. Jogou tudo dentro do box do banheiro e pôs fogo...

Sentado sobre o tampo da privada, aproveitou as chamas e acendeu um cigarro. O cheiro de queimado lhe passava um certo contentamento, uma leveza. "Vadia...".


Sexta-feira, Outubro 28, 2005


CARLINHOS

Ela estava completamente atordoada pela morte daquele garoto.

Nunca se falaram. Se bobear, ele nem sabia da sua existência. Mas, de repente, o acidente aconteceu em pleno horário de aula e o menino bonitinho que se sentava algumas carteiras à sua frente não existia mais. Simples assim.

Quando encontrou seu colega da outra sala no intervalo, seu coração bateu mais forte. "Poderia ter sido ele", pensou. Ela sentiu aquele frio na nuca, desses que só se sente em situações de extremo medo, só de imaginá-lo naquela bicicleta, no lugar do tal colega bonitinho.

Ele, por sua vez não parecia nada abalado com a morte do tal garoto. "Nem sei quem é".

Ela se sentia meio boba perto dessa indiferença, e se segurou ao máximo pra não deixar transparecer aquele leve desespero diante da fragilidade da vida. "Não morre, tá?", foi só o que deixou escapar.

"Que nada a ver...", respondeu ele, num tom repreensor.

Nunca quis tanto que uma pessoa não morresse antes. Nem depois.


Terça-feira, Outubro 25, 2005


I KNOW WHERE YOU HIDE, ALONE IN YOUR CAR

Ela correu, mas não conseguiu evitar o cabelo molhado. O Ka preto não estava muito longe do cinema, mas a chuva estava forte. Uma vez dentro, ligou o som e olhou pela janela: o maior trânsito. Não deveria demorar muito pra passar, pensou.

Fuçou a mochila no banco de trás e pegou uma blusa de moletom seca. Pegou a lata de Pringle's do porta-luvas, reclinou o banco e aumentou o som. Pensou em como gostava do seu carro. Fora duro juntar dinheiro suficiente a dar entrada e estava sendo duro pagar as prestações. Mas valia a pena.

Era o fim das intermináveis horas no busão (convenhamos que pegar trânsito num carro com música, ar condicionado e comidinhas é bem melhor que engarrafamento no ônibus). Era também ótimo poder enfim retribuir carona aos amigos, quando dava (nem que rachassem a gasolina depois).

Mas o que mais gostava era de simplesmente ficar ali. Era seu petit coin du monde, sua casinha, seu abrigo. Nos dias de stress brabo, ela dirigia até o shopping só pra ficar no estacionamento, organizando os pensamentos, orando, xingando alguém, chorando, até esvaziar a cabeça.

Tinha tudo à mão: no porta-luvas, maquiagem (por que se pintar de manhã cedinho, antes de sair de casa não dá), garrafa de água (sempre abastecida), chiclete (pras emergências) e snacks.

Pendurado no retrovisor (que ela chamava de espelhinho, apesar das reclamações masculinas), ficava pendurado um par de dadinhos; no tapa-sol, o adesivo do OneTruth (pra não perder o foco), uma foto do Bloco e os óculos escuros.

Aos pés do banco de passageiros, um par velho de all-stars (pra não levar multa quando ia de salto a alguma festa); debaixo do próprio banco, um case com todos os seus CDs prediletos (tudo cópia - não queria correr o risco de perder os originais caso o carro fosse roubado). No banco de trás, uma almofada gorda (pras sonequinhas clandestinas no estacionamento do trabalho na hora do almoço) e uma pequena mochila, sempre com uma troca de roupa (básico!) e um casaco (pra não ser pega de surpresa pelo frio).

No porta-malas, nada de pessoal. Nunca estaria ao alcance, se ela realmente precisasse de alguma coisa guardada lá. Só as ferramentas (que ela sabia muito bem usar, apesar da incredulidade da maioria).

Depois de ouvir quase todo o CD e finalmente terminar a latinha de Pringle's, percebeu que o trânsito estava quase bom. Resolveu ligar pra ele, sem disfarçar o sorrisinho bobo.

Adorava seu cantinho...


Sexta-feira, Outubro 21, 2005


LIBERDADE

"Foi para a liberdade que Cristo nos libertou"

Gál. 5:1a


Cuidados* a serem tomados para podermos desfrutar plenamente** da verdadeira liberdade, que Deus nos oferece:

· "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão" Gál. 5:1

· "Vivam como pessoas livres, :mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos do Senhor" I Pe1:16
"Como filhos obedientes, não se deixem amoldar pelos maus desejos" I Pe. 1:14

· "Não destruam a obra de Deus por causa da comida. Todo alimento é puro, mas é errado comer qualquer coisa que faça os outros tropeçarem. É melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve seu irmão a cair. (...) Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova". Rom. 14:20,21 e 22b

*cuidados = "toda escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça". II Tim. 3:16

**desfrutar plenamente= "feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova" (Rom 14:22b).


Quinta-feira, Outubro 20, 2005


RETRATOS DE UMA OBSESSÃO

Querido..
Encontrei fotos de vocês na sua gaveta..
Tem um turbilhão de emoções passando dentro de mim neste momento. Eu não sei quem é ela, não sei o que te levou a procurar carinho em outros braços, não sei o que ela tem que eu não tenho. Não entendo o que deixei faltar...
Não imagino o que você possa falar para tirar da minha boca esse gosto amargo.
Talvez nunca perca o peso que você colocou nas minhas costas. Mas o fato é que te amo, e estou profundamente magoada e confusa. Passarei uns dias fora, sozinha, pensando. Preciso desse tempo. Não me procure..
Quando eu voltar a gente conversa.
Que Deus tenha misericórdia de nós...


Terça-feira, Outubro 18, 2005


90 MILES OUTSIDE CHICAGO

Tudo escuro em volta, e o casalzinho abraçado na parede. De tão apaixonados, nem se beijam.

Ela desespera-se por dentro, em meio a tantos impasses...

"Eu te amo", diz, tristemente, do fundo do coração. Incrível como não mudava nada. Não garantia que estariam juntos no próximo momento. "Eu amo você", sussurra o rapaz de volta. Ele a segura mais forte contra si, e a garota retribui, se agarrando-se ao seu pescoço com força, tratando de aproveitar os segundos do equilíbrio improvável que viviam. Juntam as testas e se olham, intensos. Ela sente sua barba com a palma da mão e sorri incontida um riso tristonho. Fecha os olhos e ficam ali, de lábios juntinhos, respirando o mesmo ar.

Como esperado, a lua vem e vai...

O telefone toca e ela, sentada no sofá, assistindo à tv, nem se mexe... alguém da casa atende, conversa, se tranca com o telefone, e ela limpa aquele cantinho úmido do olho, respira e continua lá até o fim do programa.


PROJETO

A você com carinho
Uns pensamentos soltos e risos bobinhos
Uma auto censura de devaneios
Uma certa vontade, o mesmo receio


SCREAMING UNDERNEATH

Pra estreiar, o conto que foi para o I Concurso de Contos da Cásper.
Se ficar entre os dez primeiros, ganho uns bons tempos de cinema grátis..

Screaming Underneath

"Ou é isso, ou entendi tudo errado".

Na sala pequena da biblioteca, por um momento nada se ouvia além daquelas respirações descompassadas.

Os últimos dias haviam sido bastante confusos para aquela moça. O interesse de um no outro era óbvio, mas poucos dias ao lado do rapaz foram suficientes para ela perceber que falavam línguas diferentes. É verdade que, desde que o conhecera, sentia-se constantemente desafiada a manter um fluxo de relacionamento com um mínimo de compreensão mútua. A última semana, porém, havia sido particularmente turbulenta.

Os silêncios deles se intercalavam havia dias, assim como a inquietude de querer saber o que se passava na cabeça do outro. Num súbito de coragem, atendeu ao pedido do rapaz e lhe entregou uma dúzia de páginas de seu diário, na tentativa de esclarecer um pouco aquela neblina. O resultado não havia sido tão bom...

Agora, sentada à mesa redonda, circundada por paredes de vidro, fitava seu par de all-stars surrado e ouvia o rapaz, angustiada, esbravejar sua surpresa acerca das descobertas e conclusões (equívocas, a seu ver) que resultaram daqueles papéis.

Inesperadamente, sentiu diluir o azedume que a embebia ao ouvir a pergunta, e viu se abrir uma brecha na parede que se estabelecera entre eles.

"Entendi tudo errado?", insistiu o rapaz, com uma ponta de esperança nos olhos revoltados. O nó na garganta jovem daquela moça se apertava contra sua vontade.

"Você entendeu tudo errado", conseguiu responder um tanto desafinada. Viu aquela faísca de esperança crescer no olhar do rapaz. Os músculos de seu rosto contraíam-se agora de maneira diferente, desfazendo a expressão quase agressiva dantes.

Por instantes, sentiu uma conexão direta se estabelecendo entre aquelas almas agitadas. Ansiosa, percebeu uma tímida alegria tomar forma dentro de si, e começou a acreditar que talvez conseguiria fazê-lo ver o que ela via.

Não entendia direito a ânsia de querer manter aquela relação. Mas não tinha muito tempo. Começou a tentar organizar a enxurrada de pensamentos desconexos que giravam sua cabeça.

"O que é então?", ouviu-o perguntar, a voz bem mais amena e vulnerável, colocando os óculos sobre a mesa.

Olhou-o nos olhos e tentou ¿ em vão ¿ balbuciar uma introdução; tropeçou em alguns pontos e não soube responder. Sentiu a inquietação voltar e, em pouco tempo, seu próprio silêncio parecia cortar-lhe por dentro.

"O que é então?", insistiu o rapaz, com a revolta retornando-lhe aos poucos. Ele realmente não entendera nada. Observando a gola suada da camisa pólo do rapaz, ela quis chorar. A consciência de que, se ao menos soubesse as palavras correspondentes aos seus pensamentos, poderia por fim aos ruídos que impediam que o rapaz a compreendesse lhe doía.

Nunca se sentiu tão incompetente em toda sua vida. "Que ironia", pensou, à medida que o desespero tomava-lhe novamente. Voltou a fitar as próprias mãos e percebeu que havia descascado metade do esmalte escuro de suas unhas. Lembrou-se das outras tantas páginas escritas em secreto naquele caderno discreto, das inúmeras cartas que escrevera e não chegara a enviar. Sentia na boca o gosto amargo do sarcasmo das palavras, antigas aliadas que agora lhe fugiam...

O ar tornava-se denso demais...

A esperança do garoto pareceu se desfazer. "Je ne te comprends pas", se pôs a falar novamente, inconformado. O tom de voz se intensificava. De vez em quando, a moça lhe respondia sentenças insuficientes, e desesperava-se, assistindo a muralha solidificar-se, cada vez mais alta, entre eles.

Dentre as imagens, sentimentos e impulsos que inundavam sua mente, ela ouvia um de seus cantores prediletos sussurrar " I know I'm dead on the surface, but I'm screaming underneath...".

De mãos atadas, ela chorou aquela noite, e sentiu-se ridícula. Sabia que apenas estabelecer um canal que possibilitasse que um compreendesse claramente o outro não bastaria para salvar o romance. Não era tão ingênua. Ainda assim, "Palavras traíras!", xingava silenciosamente.

Finalmente, ele decretou o fim (e, um tanto pretensioso, previu o depois).

Só então, como se um peso lhe fora tirado das costas, ela já não sentiu mais sobre si a responsabilidade de consertar o roto cordão que os ligava através do tal muro.

No âmago de colocar a angústia para fora, pôs-se a falar. Vomitou aos pés do rapaz todos os contra-argumentos que lhe vieram à cabeça, num surto de vulnerabilidade.

Percebeu, estupefata, a facilidade com que agora as orações se formavam. Como no fim de um suspense policial, em que o assassino, pego, na última tentativa de realizar seu propósito, revela detalhadamente seus planos e táticas. O que teria a perder?

Ele acompanhou calado seu choro, fitando o chão. A moça falou muito, até secar. Até sua cabeça começar a latejar, e já não querer mais raciocinar. Esgotada, deixou de lado as palavras e recolheu-se às lágrimas, reclinando a cabeça, enterrando o rosto nas mãos. "Chega por hoje", avisou a si mesma.

Tal qual um médico, o rapaz deu os últimos pontos, limpou o corte e iniciou a despedida. Ela sentiu a sinceridade do carinho fraternal com que a abraçou ("eu me importo, e não vou embora"), e segurou-o com força contra si por um último momento, em nome dos bons momentos.

E se foram. Cada qual para seu canto. Subindo sozinha as escadas, com a pintura dos olhos toda borrada, recobrou a respiração. Game over . Daí para frente, caberiam as análises, as respostas atrasadas, as lembranças... "O fim tem dessas coisas", pensou. As lágrimas traziam desse alívio de que a tensão se foi, mesmo que o resultado tenha sido adverso.

Foi o aniversário mais triste de sua vida...



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