Obra




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Quarta-feira, Março 28, 2007


ESSE É SÓ O COMEÇO DO FIM DAS NOSSAS VIDAS

Acordou cansada com o barulho da cozinha. Era sua sogra. Olhou no relógio: sete e meia da manhã. O marido saíra mais cedo naquele dia e chegara a hora de ela trabalhar.
Tomou um banho, cantarolando, e vestiu roupas coloridas, para dar um ânimo.
Pegou seu carrinho e carregou com os quitutes que a sogra havia separado na mesa. "Cuidado para não amassar os beijinhos!" repreendeu a senhora e, como que querendo se redimir do tom quase grosseiro, emendou "Vá com Deus, filha".
O calor estava forte. Sem pressa, ela saiu com sua rasteirinha pela rua, buzinando e anunciando sua passagem "Olha o doce caseiro!". Cumprimentava as vizinhas ao longo do caminho, cada qual ocupada com sua tarefa cotidiana. As crianças eram sempre as primeiras a chegar e não foi diferente naquele dia. "Brigadeiro, pé-de-moleque, olha o docinho".
"Mas que sorriso é esse, menina?", perguntou uma das vizinhas. "Hoje faço um mês de casada!". A outra suspirou "Ah, que saudade desses tempos... aproveita!".
A condição financeira de sua recém-formada família não era das melhores, mas ela não se desesperava. Era apenas o começo da vida a dois com o esposo que amava tanto... Sabia que enfrentariam alguns momentos difícieis, mas aquela era a hora da esperança, dos sonhos, daquilo tudo que enche o coração dos apaixonados.


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Quarta-feira, Março 14, 2007


FELIZ DE QUEM SABE SOFRER

- Como assim??

- Assim, ué.

- Mas... não é justo!

- Eu sei.

- Eu não sabia que já tava no fim! Não deu tempo de terminar as coisas, ta tudo inacabado.

- Pois é.

- Não teve nem aviso! Isso não é justo!

- Não teve aviso? Você está avisado desde o dia em que começou a entender sua língua. O jogo é inesperado, mas o fim é certeiro.
Porque a surpresa? Não jogou como se fossem os últimos momentos? Pois foi avisado que poderia acabar a qualquer hora.
Se você prefere ignorar esse fato para tentar se sentir melhor, não posso fazer nada. Eu aviso.


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Segunda-feira, Março 12, 2007


NOVO FÔLEGO

Aquela dor parecia não ter fim. Marisa estava em trabalho de parto, naquele hospital sujo e frio há mais de cinco horas. Olhou a própria barriga e sentiu um turbilhão de emoções. Fora uma gravidez difícil.Perguntava-se o que o destino reservava a esse bebê; se seria o mesmo dela e dos outros seis filhos. Sentiu uma lágrima percorrer seu rosto suado ao pensar em mais uma criança sua passando fome; os erros do passado a lhe acusar, a sociedade a lhe amedrontar. Silenciosamente, pediu desculpas ao bebê.
As contrações aumentavam a cada instante, se aproximava o momento do nascimento. Naquele frenesi severino, ela empurrou e respirou repetidamente: seqüência que já sabia de cor. Obedeceu ao médico apressado, ambos ansiosos pelo fim daquilo tudo. Com toda a força de cada sentimento seu, empurrou para fora a vida que
carregava.
Veio, então, o alívio. O doutor, mudando o semblante, sorriu, como quem tem suas energias recarregadas. "É uma menina", ecoou sua voz pela cabeça delirante de Marisa. Dos braços da enfermeira, ela pegou Marissol no colo, e a fitou demoradamente... O choro, o barulho da sala e das outras mulheres em trabalho de parto foram ficando longe. As preocupações também. Olhou sua menininha - tão linda! -, e, naquele instante, era tudo que podia ver.
Esqueceu-se, por um momento, que não tinha para onde levar Marissol, senão para o canto embaixo da ponte em que vivia com parte da família. Esqueceu-se da comida que faltava, das injustiças que sofrera, do seu passado, de sua terra saudosa, da dor que até a pouco sentia. Via nos olhos daquela criança a chance de uma vida melhor, de um mundo melhor.
Pensou que, quem sabe, dessa vez, as coisas poderiam dar certo. Mal podia esperar para mostrar o seu bebê ao marido. Tão pequena, tão frágil. "Bem vinda ao mundo", sussurrou, meio para a recém-nascida, meio para si mesma.

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BREVIDADE

Tudo aconteceu muito rápido. As luzes, o rodopio, o barulho, o silêncio e a queda. Sem entender direito o que se passara, Paulo sentiu gosto de sangue na boca. Assustado, tentou mover as pernas. Para seu alívio, com muito esforço, elas responderam.
Olhou em volta, sem conseguir virar a cabeça, tentando decifrar a cena diante de seus olhos. Tudo estava embaçado, mas ele conseguia distinguir o vidro do painel quebrado e Rodrigo, caído sobre o volante, sangrando também. De repente, lembrou-se de onde estavam vindo.
As imagens, como flashes, bombardearam sua cabeça latejante. Viu-se despedindo-se de seus amigos, no fim da festa, entrando no carro, lançando um último olhar a
Priscila. Ela fitou-o também, desanimada.
Ouviu barulhos do lado de fora, provavelmente de pessoas vindo ajudá-los. Rodrigo não se mexia.
"Eu 'tô bem. Juro!". Sentiu-se ridículo por ter dado ouvidos ao que disse seu amigo, e entrado no carro sabendo que ele estava bastante alcoolizado. Todas aquelas campanhas e adesivos com frases como "se beber, não dirija", que sempre foram motivo de tantas piadas, tomaram um teor macabramente sério. Ressonavam em sua mente os maiores clichês: "nunca pensei que aconteceria comigo". Ouviu os paramédicos abrindo uma das portas, perguntando-lhe como estava, se conseguia mexer a cabeça, os membros. Estava envergonhado, e morrendo de medo. Mal conseguia balbuciar. Rodrigo foi retirado primeiro, e, dentro de mais alguns minutos, Paulo, também, encontrava-se em uma maca. Sentia agora uma dor incrível em um dos braços.
O barulho da ambulância era insuportável. Os flashes iam e voltavam. O remorso de ter dito aquelas coisas horríveis a Priscila o torturava. Percebeu que talvez nunca mais chegaria a vê-la, e que aquelas poderiam ser suas últimas palavras àquela que amava tanto. Tentou chamar por ela, naquela ânsia apaixonada de se desespera, mas seus lábios não obedeceram: a anestesia já estava surtindo efeito. Aos poucos, sentiu um torpor tomar seu corpo.


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