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Sexta-feira, Abril 27, 2007
ESKIMO FRIEND
"Não é não!" falou alto, olhando para o Gabriel. Discutiam se miojo era mais gostoso que bife. Ela não sabia dizer direito porque encafifou com a carne, mas agora não dava mais pra voltar atrás; ela tinha que ganhar a discussão. "É sim, você que é burra e não sabe." Ele gostava de macarrão instantâneo, mas também adorava um bom filé, daqueles que a mãe lhe preparava às sextas, depois da aula. Mas o que gostava mesmo era de chamar a atenção da Paula, fazê-la ficar por perto, falar com ele. Toda semana tinha um assunto novo para espizinhá-la.
O sinal do recreio tocou e ela voltou para a sala, triste, pensando se era mesmo burra. Não gostava quando ele a chamava assim...
Abriu discretamente a última página do caderno e rabiscou o coração que tinha desenhado há alguns dias, com os nomes dos dois.
Posted
10:40 AM
by Cín
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Quarta-feira, Abril 18, 2007
SINDICATO DOS PASSAGEIROS DE TRANSPORTE COLETIVO
Estas linhas não se prestam a defender os direitos dos passageiros, mas a constatar a realidade: todo mundo é valente no transporte coletivo.
Só quem anda de ônibus, trem e metrô sabe o quanto os funcionários de São Paulo são descontentes com seus superiores.
Parece não haver lugar mais adequado no mundo para desabafar as injutiças sofridas nas mãos dos chefes que os coletivos.
Homens e mulheres, principalmente na faixa dos vinte ou trinta anos de idade (especialmente os estagiários), reproduzem diálogos intermináveis a seus amigos e fazem queimar as orelhas de todos os líderes de seus respectivos trabalhos.
Pelos relatos, são uns mártires da CLT. Nas brigas que descrevem, mesmo agindo de maneira calma, sensata e comedida, são sempre alvo de perseguições e ofensas por parte de profissionais incapazes, piores que eles, ambiciosos, e maus, do tipo que tem pêlos no coração.
As inúmeras qualidades que os fazem mais capacitados para os cargos aos quais respondem estão na ponta da língua.
Haja ouvido pra agüentar..
Não me excluo dessa cena irritante. Quando fui eu a estagiária explorada sem dó nem piedade, botei a língua pra fora em milhões de viagens pela cidade entre a redação e a faculdade. Mas isso não muda o diagnóstico.
Reclamaos, xingamos, discursamos e, no fim da linha, chegamos ao escritório, cumprimentandos a secretária, puxamos o saco do chefe e ralamos o dia inteiro sem muitos pios. Afinal, justiça não paga as contas.
Posted
10:13 PM
by Cín
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Segunda-feira, Abril 09, 2007
CTRL+ALT+DEL
Ele se sentia ridículo.
Via na tela do computador o reflexo de seu rosto franzido, os cantos da boca retraídos, a expressão amarga.
Baixou a cabeça e apertou com força os olhos.
Como era possível sentir-se tão perdido, tão sem chão por causa de uma pessoa?
Como alguém como ele, senhor de si, racional, podia sentir-se tão dependente e desarmado diante da rejeição de uma mulher?
Levantou-se e foi lavar o rosto. Respirou fundo diante da pia, olhou-se no espelho. Não podia desmoronar em pleno escritório.
Dedicou um último instante à auto-comiseração.
Estalou o pescoço, voltou à baia e retomou o trabalho.
Posted
3:24 PM
by Cín
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