Textos da Cíntia




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Terça-feira, Junho 26, 2007


EU TE FIZ FELIZ

"Eu te fiz feliiiiiiz....", cantava o gurizinho emo apaixonado na rádio. O som transitava mecânico pelo ar barulhento do salão de beleza. Ela folheava uma revista de fofoca procurando uma sugestão de corte de cabelo.
Era tarde de terça-feira, e o calor estava aumentando. A Esther, parecia que os dias esquentavam cada vez mais à medida que se aproximavam as festas de fim de ano.
No meio dos pensamentos triviais que circulavam por sua mente, encontrou lembranças da adolescência. Das músicas que ouvia em sua época, de como se vestia, do que pensava, de como amava, do primeiro namorico. Sorriu de soslaio.
O torpor daquele lugar não a deixou ir mais a fundo na nostalgia. Voltou à superfície, e deixou a almar boiar por entre as novas do mundo das celebridades.


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Quarta-feira, Junho 13, 2007


PINGA NI MIM

Vi um homem vestido de terno e camisa. Ele estava completamente fora de si. Alfaiate é como lhe chamavam.
O vi primeiramente fora do ônibus, fumando um baseado no terminal.
Falava alto, as meninas passavam por ele apressadas, sem levantar os olhos. Senti um pouco de medo também.
Ele veio para meu ônibus. Parece que ele pega o mesmo todo dia, pela intimidade com que o cobrador falava da sua bebedeira.
Da falação, Alfaiate passou à cantoria. Acho que, em sua cabeça, ele imaginava estar fazendo um show diante da platéia.
Aos poucos, a atitude de reprovação e medo das pessoas se transformou em chacota.
E ele cantava, arrastava a língua, mandava beijos desengonçados, e o povo ria. No começo, timidamente, mas em pouco tempo, eram gargalhadas. O cobrador botando pilha "Canta mais, Alfaiate. Se você dançar também, ganha uma tequila".
Enquanto o ônibus seguia em êxtase humorístico, uma mulher no Capão Redondo derramou uma lágrima seca. Assustada com a própria fraqueza, a esposa de Alfaiate limpou o rosto e maldisse o marido.


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